E
a comunicação interna
com isso?
Solange Fusco*
Que a comunicação interna
pode ajudar as empresas a obter ISO
9000, reciclar funcionários e
ser competitivas para a economia global,
todos sabemos. Mas será que isto
basta?
Esta virada de século tem se
caracterizado por uma riqueza de novidades
em diversas áreas, especialmente
no que diz respeito a processos de globalização
e comunicação informatizada.
Por isso mesmo, mais do que nunca, devemos
exercitar constantemente nosso senso
crítico em relação
às atividades que desenvolvemos
dentro das empresas para poder acompanhar
com eficiência as novas demandas
geradas pelas transformações
inerentes ao nosso tempo.
A
comunicação empresarial
assume cada vez mais uma intensidade
global, nos compelindo a gerar e repassar
informações de nível
corporativo para os diversos públicos
com que a empresa se relaciona, a
começar pela imprensa, passando
pela comunidade, clientes, demais
parceiros da cadeia produtiva e da
própria organização
empresarial, principalmente funcionários.
Mas
esta mesma globalização
que abre as janelas do mundo para
nossas empresas brasileiras, supostamente
"isoladas" do mundo até
então, também gera uma
forte pressão nas organizações
no sentido de aprimorar processos
de qualidade e tornarem-se mais competitivas
perante a economia mundial.
Ao
nos lançarmos em busca de referenciais
globais de qualidade – como
certificação ISO 9000,
por exemplo –, nos damos conta
da importância do envolvimento
dos funcionários nesses processos.
E aí a comunicação
interna é convidada a desenvolver
mecanismos que agilizem e tornem possível
essa integração dos
funcionários com as mudanças
que estão acontecendo dentro
das empresas.
Também
somos chamados para conscientizar
os funcionários sobre novos
processos de gerenciamento e produção,
novas formas de aumentar a produtividade
e novas responsabilidades para os
funcionários em processos de
decisão grupal ou individual.
Além de uma série de
outras novidades que têm alterado
substancialmente o perfil dos requisitos
básicos a serem cumpridos pelos
funcionários para que possam
fazer parte da organização.
Há
um lado inegavelmente positivo em
todas essas mudanças, principalmente
no que diz respeito à reciclagem
de conhecimentos das pessoas. A educação
complementar, oferecida pela empresa,
é uma conquista memorável.
Também aumentou a oportunidade
para que pessoas de áreas estritamente
operacionais passassem a participar
de processos de decisão, ainda
que em níveis limitados.
Mas
há também um outro lado
da moeda em que vemos refletidos aspectos
igualmente novos, neste século:
a expectativa de que a tecnologia
tornaria possível aliviar a
carga de horas trabalhadas, em favor
de mais qualidade de vida para as
pessoas, caiu por terra. As organizações
sindicais apresentaram certo enfraquecimento
diante do processo de enxugamento
pelo qual passaram as empresas nos
últimos anos. E o funcionário
teve que dar graças pela oportunidade
ou privilégio de poder manter-se
empregado.
A
comunicação informatizada
faz com que as pessoas recebam e transmitam
um número cada vez maior de
informações em intervalos
de tempo cada vez menores. Na verdade,
essa tecnologia possibilita que todos
trabalhem mais nas mesmas oito horas
diárias que sempre dedicaram
às suas empresas. E, muitas
vezes, continuam trabalhando, antes
ou depois do expediente, através
de e-mails, telefones celulares etc.
Enquanto isso, na produção,
não basta apenas produzir –
é preciso estar integrado às
constantes mudanças de processos
e tecnologias etc.
Não
é sem razão, portanto,
que outra palavra da moda, neste final
de século, seja o stress.
Tudo
isso nos faz repensar a atividade
de comunicação empresarial
mais especificamente voltada para
o público interno, com uma
pergunta bastante simples, cuja resposta
pode não ser tão fácil
de obter: nossos funcionários
estão felizes? Altruísmos
à parte, isto acaba se refletindo
no clima organizacional e na qualidade
dos produtos e serviços da
empresa.
Recentemente
introduzimos um novo projeto de integração
dos funcionários, na Volvo
do Brasil, que nos surpreendeu pelos
resultados obtidos e, talvez, apresente
elementos para esta reflexão
sobre a qualidade de vida das pessoas
na empresa. Trata-se do projeto "Arte
na Fábrica", que deu aos
funcionários a oportunidade
de revelarem e exercitarem seus talentos
extra-profissionais, participando
da elaboração de esculturas
e painéis artísticos
posteriormente instalados nos seus
próprios ambientes de trabalho.
A primeira, celebrando o encerramento
da produção de um determinado
modelo de cabine de caminhão,
foi integralmente desenvolvida e executada
por eles. A segunda teve a coordenação
de uma artista plástica paranaense,
que contou com a habilidade dos funcionários
na execução de um projeto
artístico que passou a ser
uma das principais atrações
de nossa nova fábrica de motores.
Um
dos resultados mais perceptíveis,
apesar de abstrato, é o sentimento
de orgulho e o nível de motivação
dos funcionários envolvidos.
Como se cada um deles se sentisse
um pouco Leonardos da Vinci ou Michelangelos
aos olhos dos visitantes admirados.
Certamente
isto não significa que a resposta
para tudo esteja nesta iniciativa.
Mas aponta um caminho: a valorização
dos talentos pessoais, digamos, "extra-curriculares".
A valorização da pessoa
em si. E isto nos remete ao ponto
principal de nossa reflexão
com outra questão: será
que estamos praticando a comunicação
interna com sua devida importância?
Em
vez de meras ferramentas para as empresas
atingirem seus objetivos, a comunicação
interna também pode e deve
se propor a ajudar as pessoas de cada
empresa a se sentirem mais felizes
em seu ambiente de trabalho onde,
em tese, passam pelo menos um terço
de suas vidas. A nós, profissionais
da área, resta descobrir como.
*Solange
Fusco, relações públicas
e gerente de Comunicação
Corporativa da Volvo do Brasil
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