Entrevista:
Amauri Marchese - "A
boa imagem começa em casa"
Raul Monteiro Fonseca
O jornalista e
relações-públicas
Amauri Marchese é contra a hipocrisia
com que vem sendo erigida pelo menos
parte das políticas de comunicação
internas de muitas empresas. Por um
motivo simples: não funcionam.
“Não adianta você
fazer um discurso bonito, colocar placas
na parede e dizer que seu empregado
é participe do negocio, se a
pratica mostra uma outra realidade”,
avisa. O professor da Escola Superior
de Propaganda e Marketing (ESPM) diz
que este negócio de falar para
o empregado é coisa séria
exige profissionalismo e, mais do que
isto, dois pressupostos básicos:
verdade e transparência. “Se
o empregado não confirma o marketing
da empresa, a organização
se torna inconfiável.”,
completa.
Por
este motivo, Marchese chega até
a condenar o uso do termo endomarketing,
conceito empregado para designar as
iniciativas voltadas à integração
do empregado na tarefa de vender bem
a organização. Para
ele, o fundamental é que o
marketing seja entendido como uma
filosofia que permeia todos os aspectos
da gestão da empresa.
Desta
forma, ficaria mais fácil identificar
o instrumental para transformar intenção
em ação. O bom de tudo
isto, no entanto, é que, discussões
conceituais a parte, o especialista
está convicto do seguinte:
Se o desafio de falar para os empregados
for levado a sério , o mercado
profissional estará vendo surgir
uma nova atividade verdadeiramente
fascinante, cujo nome será
o menos importante a definir.
Marchese
veio a Salvador a convite da Tamta
Publicidade, que promoveu seminário
sobre endomarketing na semana passada.
Ele visitou a redação
do jornal A TARDE e falou com exclusividade
para Empregos & Mercado. Vale
a pena conferir!
P
– É possível dizer
que esta surgindo um profissional
de endomarketing, diferente do profissional
de marketing?
R
– Quando a gente fala de endomarketing,
a gente tem de lembrar como esta história
nasceu. Foi por volta de l983, 84,
no Brasil, com um negócio chamado
comunicação empresarial,
que também não chamava
comunicação empresarial.
Todo este movimento no Brasil começou
a partir da área de jornalismo
empresarial, que foi o grande responsável
pela mudança de postura das
organizações. E aí
a gente precisa fazer uma análise
sobre as necessidades que as empresas
tinham. Quando o mundo muda, a comunicação
muda junto. Se você pegar o
perfil do profissional da época,
eram os jornalistas que saíram
da grande imprensa e foram para as
empresas, não como assessores
de imprensa, mas sim para fazer jornal
interno. Aí, houve a evolução.
Como o jornalista interno geralmente
estava atrelado à área
de RH , na época chamada de
relações industriais,
o discurso precisou mudar. Quer dizer,
você sai de um discurso empresarial,
onde ninguém abria a boca para
falar com ninguém, uma empresa
com perfil paternalista, autoritário,
que era o próprio perfil do
regime militar, e de repente tem que
começar a negociar com um monte
de gente. Quando isto aconteceu, as
empresas não estavam preparadas
para conversar. Então, você
vê dois elementos básicos
– os jornalistas que saíram
da grande imprensa e foram para as
empresas e o relações
públicas aparecendo de uma
forma diferente: ele sai da posição
de porta-voz que tem e começa
a ser o homem de relacionamento das
organizações com seus
diversos públicos, que era
a base das relações
públicas. Marketing, nesta
história toda, é a coisa
mais nova que tem. E tem um problema
que é muito sério: ainda
não é visto da maneira
adequada e correta, mas virou uma
coisa muito presa a vendas, a propaganda,
ao glamour, que antes estava na mão
de apenas da propaganda. Então,
esta confusão de áreas
foi gerando uma serie de nomes e um
dos mais recentes é o endomarketing,
que tem cerca de oito, dez anos, no
Brasil. E em tese, com a qual eu não
concordo, inclusive, é aquela
história de você fazer
o marketing para dentro, ou seja,
faça o marketing dos empregados.
P-
Por que o senhor diz que não
concorda?
R
– Porque, na verdade, não
é isto. Marketing é
uma coisa muito maior do que esta
coisinha pequena que estão
querendo chamar de endomarketing.
Se eu tenho de um lado o patrão
e de outro o empregado numa relação
conflituosa por natureza e historicamente,
na medida em que isto evolui para
um pacto social, a conversa vai mudar.
Na hora que você tem que mudar
seu discurso empresarial, ou seja,
você tem que mostrar para o
seu empregado que tipo de atitude
ele precisa ter para ir ao encontro
das necessidades e expectativas que
a empresa tem enquanto empresa, você
precisa usar um canal diferenciado
e este canal começaram a chamar
de endomarketing como ações
de marketing voltadas para o público
interno. A gente defende uma outra
tese: o marketing deve permear a empresa
como um todo, do goleiro ao ponta-esquerda,
porque é uma filosofia de administração,
é um troço muito mais
amplo e importante. A empresa que
não enxergar marketing como
uma filosofia administrativa que permeia
todas as relações dentre
o povo que está lá dentro
e o que está lá fora,
não tem como sobreviver. Só
que aí nós vamos lançar
mão das ferramentas de comunicação,
que não têm absolutamente
nada a ver com o marketing, para dar
sustentação ao plano
de marketing. O marketing numa empresa
está lá para pensar,
a propaganda para vender e a comunicação,
entendendo como todo o restante desta
forma integrada de interagir empresa
e seus públicos, para dar sustentação.
Então: o marketing pensa, a
propaganda vende e a comunicação
sustenta. E esta sustentação
se dá principalmente por meio
da comunicação interna.
Então, o que é que é
endomarketing ? Ação
dentro do mercado? Como é que
funciona isto? Então, criamos
uma outra definição,
que é agir sobre o mercado
a partir do público interno.
Ou seja,, uma empresa só vai
transformar o mercado, só vai
conquistar clientes, só vai
fidelizá-los, se todo o pessoal
interno, ou seja, se toda a gama de
seus empregados entender qual é
o seu papel neste processo e perceber
que, se fizer uma besteira e o cliente
desistir de sua empresa, for para
o concorrente, quem está perdendo
é ele. Mais do que a empresa,
quem perde é o próprio
empregado.
“Uma
empresa só vai transformar
o mercado, só vai conquistar
clientes,
só vai fideliza-los, se todo
o pessoal interno, ou seja,
se
toda a gama de seus empregados entender
qual é o seu papel neste processo
e perceber
que
, se ocorrerem erros, quem vai perder
são eles”
P-
Mas, na prática, estas relações
não são tão causais
ou lineares assim.
R-
E nem tão claras. E é
exatamente ai que a gente entra com
o conceito mais aprofundo. Onde é
que esta o problema fundamental? Não
é fazer jornal, não
é fazer material, campanha,
mas fazer com que os gestores, a liderança
que dirige a organização,
mude de atitude, porque, se não
mudar de atitude, o resto é
cosmético. Eu posso implantar
um programa de endomarketing? Até
posso. Mas o que é que eu quero
com isto? Amenizar as relações?
Mas onde está o problema fundamental?
Primeiro, na falta de preparo de liderança
para ser um grande comunicador. A
gente parte do seguinte princípio.
Eu só consigo ter um receptor
adequado na outra ponta se o meu emissor
for muito bom. Eu defendo nessa minha
dissertação de mestrado
que a responsabilidade da comunicação
está todinha na mão
do emissor. E a importância
deste processo comunicacional esta
exatamente no receptor, que é
quem vai te dar resultados resposta.
Portanto, se eu tenho pessoas liderando
empresas, nos seus cargos de gestão
que são maus emissores, provavelmente,
lá na outra ponta, eu terei
uma má recepção.
E ai é que esta o grande problema:
é preciso conscientizar esta
gente de que o problema não
é do outro, mas dele. Isto
a gente escuta todo o dia: ah, eu
dei a mensagem, o cara que se vire.
Não é assim. Eu dei
a mensagem e tenho que descobrir se
o cara entendeu a mensagem exatamente
do jeito que eu queria que ele entendesse.
“Se
eu tenho pessoas liderando empresas,
em cargos
de
gestão, que são maus
emissores, provavelmente, lá
na outra ponta,
eu
terei uma má recepção.
E aí é que está
o grande problema: é preciso
conscientizar
esta
gente de que o problema não
é do outro, mas dela”
P-
Mesmo porque esta mensagem não
é exclusivamente verbal. No
caso do gestor ou do líder,
impacta, sobretudo, o procedimento,
a prática.
R-
É exatamente isto. Quando falamos
em postura e atitude, é exatamente
isto: o discurso é geralmente
diferente da ação. E
é isto o que a gente vê
no dia-a-dia das empresas. Têm
um discurso maravilhoso, política
disso na parede, política de
qualidade, missão, valores,
uma série de coisas colocadas,
que, na verdade, no exemplo do dia
a dia, principalmente do chefe direto,
do gerente, do gestor, se vê
uma coisa completamente diferente.
Então, o que se perde é
a credibilidade. Nós estamos
ai exatamente para tentar trabalhar
o conceito de: se eu aproximo o discurso
da ação, as pessoas
passam a ter outro tipo de credibilidade
nas pessoas e na empresa. Com isto,
eu consigo diminuir exatamente os
problemas que existem nesta relação
entre patrão e empregado. No
fundo, o que a gente busca são
instrumentos de comunicação
– assessoria de imprensa, relações
públicas, propaganda institucional,
comunicação interna
em todos os seus níveis, internet,
intranet -, têm que estar a
serviço de objetivos comuns,
entendendo exatamente que, se eu não
arrumar a casa aqui, lá fora
o negocio vai ficar ruim, porque a
boa imagem começa em casa.
Porque hoje a imprensa não
quer somente estar, ela precisa se
perpetuar e, quando isto ocorre, estaremos
trabalhando a serviço não
só da organização,
mas de todas as pessoas que dela fazem
parte. Como mostrar, por exemplo,
para o seu fotógrafo que o
trabalho dele é absolutamente
fundamental para a sobrevivência
do seu jornal e dele? Quer dizer;
quando ele sai daqui e diz lá
fora que trabalha num jornal legal,
que me dá condições
, boa máquina, um bom respaldo,
ele diz que a empresa é boa,
é confiável, tem credibilidade.
Agora, se sai daqui e diz o contrário,
a imagem que as pessoas lá
fora vão ter será ruim,
isto de alguma forma se dissemina,
e ele vai buscar procurar uma alternativa.
“Lamentavelmente,
o discurso é geralmente diferente
da ação.
Há empresas que tem um discurso
maravilhoso, política de qualidade,
Missão,
valores, uma série de coisas
colocadas, que quando se apura, principalmente
Por
parte do chefe direto, do gerente,
do gestor, é completamente
diferente”
P- Mas qual é, então
o perfil deste profissional encarregado
de fazer este meio de campo?
R - Ele precisa ser um profundo conhecedor
do negocio da empresa para a qual
trabalhe. Ele tem que conhecer comunicação,
marketing, conhecer genericamente
uma série de especialidades
e tem que ter conhecimento técnico
da área de comunicação.
A única coisa que ele não
precisa obrigatoriamente ser é
jornalista ou relações
públicas. Se for, melhor. Ele
tem que ser um cara que conhece muito
bem o negócio, a empresa, tem
que ter trânsito político,
tem que conseguir a informação
privilegiada – porque o que
mata todo o sistema de informação
organizacional é você
ficar sabendo depois que todo o mundo
já sabe. Então, ele
vai estar politicamente colocado numa
situação onde ele obtém
este tipo de informação
e ele não está para
julgar, mas para influenciar. Por
exemplo, se a sua empresa resolver
mandar 200 caras embora amanha e você
é um homem influente, você
vai poder ratificar ou não
a recomendação. Então
se ele tiver uma formação
voltada para a comunicação,
será melhor, mas isto não
é fundamental.
P – Este profissional
deve pertencer ao quadro da organização
ou o ideal é que ele atue como
consultor?
R
– Hoje, é absolutamente
imprescindível que as empresas
tenham um profissional, no mínimo,
um profissional que pense, lá
dentro, vivendo, lendo o dia-a-dia,
conhecendo profundamente a cultura
da empresa para poder influenciar
. É obviamente vai lançar
mão de fornecedores externos
para produzir coisas, para ajuda-lo
a desenvolver suas estratégias.
Agora, eu não veja a menor
chance de um cara de fora ter a mesma
performance de um cara que está
lá dentro.
P – Este profissional estaria
ligado a que setor, ao marketing,
ao RH, por exemplo?
R
- O ideal é que houvesse nas
organizações uma área
especifica cujo nome pode ser escolhido
e ela estivesse ligada diretamente
à presidência da empresa,
porque aí ele vai ter este
trânsito e obter as informações
no seu tempo e vai saber como e quando
soltar as informações
e para que público, trabalhando
isto de forma integrada. Então,
o ideal é que você tenha
tudo que tem de comunicação
com todos os públicos, ligados
com a assessoria direta, não
é uma diretoria de marketing
(que está lá para fazer
outra coisa), nós estaremos
aqui para dar sustentação
a toda a empresa. Na pior das hipóteses,
eu prefiro que a área de comunicação
interna, se ela não puder ficar
neste chapeuzão aqui, fique
em recursos humanos. Porque a visão
de marketing e as pessoas que trabalham
em marketing raramente conhecem o
que é comunicação
na sua essência e, principalmente,
o que é fazer comunicação
com o empregado. Por isso é
que não concordo com o endomarketing.
Faze endomarketing não é
fazer oba-oba e dar brindezinho –
isto também é -, mas
isto faz parte de um contexto mais
amplo, que é primeiro você
ter consciência de que você
vai lançar o produto internamente
antes em respeito em valorização
aos caras que fazem o seu produto.
O brinde, a festa, isto é outra
conversa, que é decorrente
de uma outra história, chamada
de filosofia. Por isso que acho que
não é possível
misturar marketing com propagada,
com jornalismo. Marketing pensa, desenvolve:
o que é que eu quero ser quando
crescer, para onde esta a empresa
vai, como vai se posicionar e nós
vamos fazer a sustentação
disso tudo para os diversos públicos
com os quais a empresa se relaciona.
Você nunca vê um cara
de marketing fazendo lobby, com a
comunidade governamental.
P – O que me parece
ser o papel deste profissional também
é tarefa de envolver o público
interno da empresa em seu processo
estratégico, o que é
também um desafio para a liderança.
R
– Em nenhum momento, este homem
deverá ser o responsável,
por exemplo, por uma revolução
da própria gestão, mas
ele tem a obrigação
de fazer a leitura do cenário
e dizer quem de direito que as coisas
estão mudando. Ele vai ser
o cara que vai levantar a bandeira
de que, para a tomar uma decisão,
tem que chamar todo o mundo. Ele tem
que chamar o dono da empresa, o presidente,
apresentar o cenário e recomendar
um posição. A gente
tem acompanhado uma evolução
muito grande da área, porém,
nas cabeças que a dirigem –
e no meio, na gerencia média
das organizações –
existe ainda uma resistência
fortíssima. No topo, porque
tem o poder porque tem, mas acha que,
no meio deste poder, resolve tudo.
P – Em decorrência
do medo de compartilhar.
R
– Na verdade, é o medo.
Nestas circunstancias, se o cara de
comunicação não
tem este perfil e o peso político
necessários e resolve encarar
o dono de uma organização
e avisar para os riscos do temor,
a primeira coisa que acontece é
ser mandado embora. Na verdade, a
gestão empresarial ainda esta
mudando, mas mudando a passos muitos
lentos. As pessoas que estão
encaixadas neste processo que mudam
têm dificuldade em mudar a atitude.
É preciso dizer que a transparência
hoje não é mais nenhum
diferencial, mas um dado de cenário.
As empresas precisam ser claras, principalmente
com quem está lá dentro.
Fazer uma imagem diferente do que
você é internamente para
o seu público externo não
é difícil – vide
os marqueteiros fazendo políticos
ganhar a eleição Agora,
dentro de casa, o processo é
diferente. Exatamente, porque o funcionário
saber que o cara diz que faz e não
faz. Neste hora, eu vou lá
fora e digo.
“Fazer
uma imagem diferente do que você
é internamente
para
o seu público externo não
é difícil. Agora, em
casa, o processo
é
muito distinto. Exatamente, porque
o funcionário sabe o que está
acontecendo,
sabe
que o cara diz que faz e não
faz. Nesta hora, ele vai lá
fora e diz”
Fonte:
A Tarde – Salvador – BA
– seção empregos,
pág. 8 17/11/2002
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