Vamos
todos faturar
Revista EXAME, edição
de abril/2000
Por Cristiane Mano
Aliandra
de Oliveira, uma paulista de 25 anos,
abre um sorriso e tira do bolso um
pequeno pedaço de papel. É
um contrato de consórcio. Ela
tem apenas 2 minutos para convencer
o cliente, do outro lado do balcão,
a preenchê-lo. Que tal uma geladeira
nova em 20 prestações?
Ou um fogão em 30 vezes? A
principal função de
Aliandra, caixa de uma das lojas do
Magazine Luiza, em Sertãozinho,
no interior de São Paulo, não
é oferecer nada ao cliente
e, sim, cobrá-lo. Ela é,
no entanto, uma das funcionárias
que mais vendem consórcio em
todas as 96 lojas da rede, espalhadas
pelos Estados de São Paulo,
Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e
Paraná.
Funcionários
polivalentes, cujo objetivo final
é aumentar o faturamento estejam
eles na função em que
estiverem, fazem parte do cenário
nas lojas do Magazine Luiza. "É
quase impossível entrar em
qualquer uma de nossas lojas sem receber
a oferta do consórcio de vendedores,
caixas ou mesmo de auxiliares de cobrança",
diz Agenor Roveda Júnior, diretor
do Consórcio Luiza, uma das
empresas do grupo, que faturou 538,5
milhões de reais em 1999. Esses
casos são resultado de uma
das várias campanhas de endomarketing,
um termo técnico para motivação.
Seu objetivo é fazer com que
os funcionários da empresa
comprem uma idéia para poder
vendê-la com mais eficiência
aos clientes. Fazer com que o trabalho
de cada empregado tenha um impacto
direto e mensurável no resultado
final da corporação.
A
campanha de venda de consórcios
do Magazine Luiza começou há
dois anos. Desde então, a empresa
deixou de concentrar todos os seus
esforços em promoções
para os consumidores para desenvolver
a motivação de seus
funcionários. O ponto alto
acontece uma vez por ano, quando o
campeão de vendas de consórcio
ganha um carro zero-quilômetro.
Aliandra ganhou um Palio no início
deste ano pelas suas 405 vendas de
consórcio feitas no ano passado.
"Passei a me empenhar nas vendas
quando vi o que poderia ganhar",
diz ela. Alexandra Dandaro, de 21
anos, que trabalhou como caixa em
uma das lojas da rede em Ribeirão
Preto, no interior de São Paulo,
foi a campeã de vendas de 1998:
foram 308 cotas. Alexandra vendeu
o Palio para pagar as prestações
de sua festa de casamento. Seus resultados
foram tão bons que ela foi
promovida a vendedora em meados do
ano passado. "Queremos que cada
funcionário sinta-se responsável
pelos resultados da empresa",
diz Luiza Helena Trajano Rodrigues,
49 anos, superintendente do Magazine
Luiza.
Foi
a necessidade que fez com que o consórcio
ganhasse a atenção dos
executivos do grupo. As vendas de
eletrodomésticos e móveis
caíram 5,3% em 1998 (veja o
quadro acima). Nessa época,
as redes de varejo do país
passaram a sofrer a ameaça
(muitas vezes concretizada) da inadimplência.
"Havia uma faixa de público
(que não podia pagar à
vista nem a prazo) que não
atendíamos", diz Luiza
Helena. "Achamos que os consórcios
poderiam atraí-la." Desde
1997, as vendas de cotas mais do que
dobraram - passaram dos 2,8 milhões
de reais em 1997 para 6,6 milhões
no ano passado. "O consórcio
é uma forma de garantir um
volume de vendas a médio e
longo prazo", diz Nelson Barrizzelli,
professor da Faculdade de Economia
e Administração da USP
e especialista em varejo.
O
primeiro passo foi criar um ambiente
competitivo entre os funcionários.
"O mais importante é estabelecer
metas possíveis", diz
Roveda. Desde janeiro de 1998, todos
que trabalham no grupo - inclusive
o pessoal da área administrativa
- usam broches brancos. À medida
que o funcionário vende cotas,
ele recebe broches de cores diferentes:
para uma cota vendida, bronze; para
três, prata; para cinco, ouro;
e para trinta, diamante. A contagem
dos pontos recomeça todos os
meses. A própria equipe pressiona
quem não se livra do broche
branco. "É preciso fazer
o funcionário pegar gosto pelas
promoções, com prêmios
pequenos", diz Pedro Furquim,
consultor de marketing do consórcio
Luiza. Todas as vezes em que recebe
um novo broche, o funcionário
ganha uma raspadinha. Ali, há
prêmios em dinheiro ou em produtos
da loja. "Montei minha casa com
esses prêmios", diz Alexandra.
Para entender melhor por que havia
resistência de membros da equipe
para a venda das cotas, Roveda criou
grupos do pessoal administrativo do
consórcio que visitam as lojas
todos os meses. No final de 1998,
eles descobriram, por exemplo, que
os funcionários achavam o processo
de preenchimento dos contratos muito
demorado - cerca de 25 minutos. Depois
de um mês, foram criados contratos
simplificados, que cabem no bolso
da camisa do uniforme dos funcionários
do magazine.
Como
os salários de todos - até
os dos faxineiros - variam conforme
os resultados da empresa, a eficiência
é cobrada pelo próprio
grupo. "A equipe sente que, se
um colega não colabora para
os resultados, ele está ganhando
nas costas de todos", diz Roveda.
Em dezembro do ano passado, ele foi
comunicado de que o grupo decidira
demitir um funcionário da área
de finanças. Roveda apenas
avaliou as justificativas do grupo
e acatou a decisão.
Nos
próximos meses, a campanha
passará a associar as premiações
à qualidade das vendas, em
vez de apenas distribuir prêmios
aos recordistas. Para os vendedores
de consórcio de carros, isso
já funciona. A cada trimestre,
aquele que tem o menor número
de clientes que desistiram do consórcio
ganha um prêmio de 2 000 reais.
Resultado: cerca de 30% dos desistentes
são recuperados. Maurício
Alberto de Souza, de 38 anos, um dos
150 vendedores que trabalham nos representantes
exclusivos do Consórcio Luiza,
foi premiado no segundo trimestre
do ano passado. Ele vendeu 85 contratos
- sendo que 76 deles não foram
desfeitos. A idéia é
fazer com que o vendedor se sinta
motivado a cuidar do cliente. "Costumo
ligar para eles depois das vendas,
perguntar se o boleto chegou no dia
certo, saber se eles têm alguma
dúvida ou problema", diz
Souza. O prêmio pagou sua viagem
a Camboriú, no litoral catarinense,
com a mulher e os três filhos.
"O segredo para incentivar uma
equipe é não cair na
monotonia", diz Roveda. "Chega
uma hora que até carro zero-quilômetro
enjoa."
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